É isso mesmo: para entender o atual momento político, nada melhor que entrevistas com personagens da história e analistas isentos e conhecedores do que se debate. Paulo Moreira Leite, agora escrevendo no Portal "Brasil 24/7" faz isso com uma oportuna oitiva do cientista político e professor Wanderley Guilherme dos Santos:
Para mestre da Ciência Política, cada proposta da
candidata do PSB serve para um país diferente. "Como é possível
desprezar o Pré-Sal?"'
Há meio século que o professor Wanderley Guilherme dos Santos
tornou-se uma das grandes referências para o debate político brasileiro.
Wanderley era um estudante de 27 anos quando escreveu “Quem dará o
golpe no Brasil,” texto que antecipou, em 1962, os desdobramento do
conflito que levaria ao golpe de 1964. Em 1998, publicou “Décadas de
Espanto e uma Apologia Democrática,” livro um essencial para o
entendimento da Era Vargas e dos anos FHC — ali explica que a luta
permanente contra a CLT, a Consolidação das Leis Trabalhistas, é a única
causa que unificou o conservadorismo brasileiro depois do Estado Novo.
Aos 79 anos, professor aposentado de Teoria Política na UFRJ, ele deu a
seguinte entrevista ao Brasil 247:
PERGUNTA — Em função das pesquisas, muita gente diz que Aécio é carta fora do baralho. O senhor concorda?
RESPOSTA – Se as eleições estiverem desproporcional e
irreversivelmente contaminadas pela emoção, o resultado torna-se
racionalmente imprevisível. Admitindo uma linha de racionalidade, e
assistindo aos programas televisivos e entrevistas, observo que, para um
eleitor anti-governo, ou anti-petista, de um modo geral, o candidato
mais consistente, cujos planos são realizáveis, é Aecio Neves. Os preços
sociais, de identidade nacional e de comprometimento de futuro são
também relativamente previsíveis e cabe ao eleitor decidir que composto
de bens e males ele prefere.
PERGUNTA — E a campanha de Marina Silva?
RESPOSTA — É diferente no caso da candidata Marina Silva que propaga a
tese de que os problemas do país decorrem da competição entre o PT e o
PSDB, cuja superação pela vitória de uma terceira sigla teria potencial
para, por sí só, encaminhar de forma benéfica todas as soluções que a
competição tradicional impede. Esse equívoco de diagnóstico (se é que a
candidata e seus assessores acreditam de verdade nele) permite tratar os
problemas de forma fatiada como se a política adotada em um setor não
repercutisse em outras áreas relevantes. São propostas, cada uma, para
um país diferente.
PERGUNTA — Por exemplo…
RESPOSTA — Como é possível menosprezar a economia política do pré-sal,
manter os empregos em toda a cadeia produtiva ativada pela Petrobrás e
investir fortemente na educação e na saúde? Da hegemonia da economia do
etanol? Da energia eólica e solar? Em que década do século XXI? Como
reduzir o gigantesco esforço que vem sendo realizado para garantir à
sociedade uma infraestrutura material moderna e, ao mesmo tempo, dar à
agricultura, em particular à agricultura familiar, estradas, ferrovias,
silos e crédito suficientes para estimular uma exportação competitiva e
comida barata no bolsa amilia? Como obrigar o sistema de governo (caixas
e bancos de governos estaduais) a competir com os juros de mercado do
sistema financeiro privado e manter o programa minha casa, minha vida?
Como preparar o Brasil para a complexa competição derivada da revolução
tecnológica em curso (de onde as prioridades do investimento em
universidades, em pesquisa tecnológica e programas como o Pronatec)?
PERGUNTA — O senhor está falando de uma cascata de ideias improvisadas…
RESPOSTA — Não se trata apenas de que as ofertas compõem um programa
obscurantista, creacionista, mas de que a proposta, tudo somado, é
auto-fágica, inviável. Por isso não creio que as propostas da Rede, em
sua versão PSB, sejam sérias. E por isso acredito que se o fator
emocional retomar seu nível tradicional e relativo em competições
políticas, o candidato Aecio Neves se afirmará como o representante
consistente da facção conservadora e não seria uma carta fora do
baralho. Mas alguns eventos não repetitiveis (o acidente com Eduardo
Campos) e o oportunismo seletivo da mídia podem dificultar a competição
em seus níveis históricos de emoção e racionalidade.
PERGUNTA O senhor vê algum erro na campanha de Dilma Rousseff?
RESPOSTA — Faltam à campanha de Dilma, a meu ver, tradução de obras em
realidades humanas e didática eleitora. Exemplos. Eu começaria mostrando
o valor do bolsa família e de onde ele vem: tudo tem início na
agricultura, que precisa de crédito, garantia e investimento. Passa pelo
transporte em rodovias, ferrovias, portos, silos e energia para chegar
aos brasileiros sob forma de bens de consumo, que só podem ser
consumidos porque os salários tem sido defendidos no poder de compra. É
por isso, e várias outras coisas, que o governo está fazendo isto,
aquilo e aquilo outro. Outro exemplo: de onde vem o luz para todos? Dos
investimentos em energia, do petróleo para alimentar o transporte, das
redes de distribuição e é isso que o governo vem fazendo assim e assado.
Ir do Pronatec para trás até o problema da inovação tecnológica. No
programa Minha casa, minha vida, mostrar a viagem de indústrias,
créditos, estradas, fábricas de cimento, siderurgia, tudo sintetizado em
uma chave. Em suma é necessário revelar o emprego, o salário e o tipo e
tamanho das ações do governo para que esses bens mais visíveis estejam
presentes.
PERGUNTA — Em geral, o senhor vê muito ilusionismo nas campanhas pela TV?
RESPOSTA — Programas que proponham mudanças em um setor sem dizer o que
vai acontecer nos outros e no fim da cadeia produtiva e nas condições de
bem estar da população são programas enganadores ou de quem não conhece
os problemas que um governo tem presente em sua agenda diária. Acho
até, que a Dilma começa o dia tomando conhecimento de todos os problemas
que exigem tratamento, de onde não poder deixar de conhece-los e
reconhece-los, e que, aliás, são em número e de complexidade bem maiores
do que os que cabe em discursos, mas não na vida. É didaticamente
importante mostrar o tempo de maturação das políticas: sabendo que há um
problema de cabeamento ou de transporte, do estudo e formulação de
política ao investimento e deste à finalização da obra existe um tempo
físico que não se submete a voluntarismos políticos. Tuneis urbanos
levam tempo para serem construídos, usinas de energia precisam anos,
hospitais necessitam de engenharia, pessoal humano e instrumentos
tecnológicos. Não existe varinha mágica que realize tudo isso porque
queremos o bem para todos no prazo curto. Especialmente porque esses
problemas foram negligenciados no passado é que custam muito tempo e
recursos para soluciona-los no presente.
PERGUNTA –O senhor lembra de outro pleito onde a mídia teve um comportamento tão parcial?
RESPOSTA –O jornalismo político brasileiro se aproveita exaustivamente
das condições institucionais vigentes. Umas são de extrema relevância
para a democracia – a liberdade de opinião e de expressar preferência
política, por exemplo – outras deixam os cidadãos desarmados face a
crimes catalogados nos códigos mas de julgamento e reparação ineficazes.
Esse é um dado a ser levado em conta nos cálculos eleitorais, não para
formar hipóteses sobre o que aconteceria caso o mundo fosse diferente.
Não se dispôs a alterar as regras antes. Agora é contar com elas.
PERGUNTA O senhor foi um dos primeiros a denunciar o julgamento da AP
470 como um tribunal de exceção. Considera que o julgamento está tendo
um peso na eleição?
RESPOSTA — Penso que a Ação Penal 470 tem influído no processo
eleitoral mais pela difusão da cultura do medo do que pela pedagogia
cívica. Pelas pesquisas verifica-se, em todo o país, que o eleitor
continua a votar conforme sua preferência, independente das ameaças de
juízes e tribunais, inclusive em candidatos sub-judice. Mas as campanhas
têm sido medíocres, enfatizando aspectos não muito centrais em projetos
de governo (no caso de candidaturas a executivos) ou em legislações
específicas (caso dos candidatos a postos legislativos). Deu-se o efeito
de criminalização ou, quando em mal menor, a suspeição da atividade
política, com os candidatos buscando persuadir a população do que não
são ou seriam mais gastadores, predadores, etc. Isso em geral, sem
prejuízo das exceções e das candidaturas da carochinha que prometem de
tudo porque, no fundo, sabem que não ganharão nada.