Do Portal "Rede Brasil Atual"
Filme triste
A TV organiza a massa
Pena que a regulamentação dos
meios eletrônicos está engavetada. Se houvesse outras vozes no ar,
teríamos mais chance de evitar o golpe anunciado
por Lalo Leal
Como o Passe Livre disse que não convocaria mais atos, a Globo assumiu o comando. Qual será o próximo?
A TV, chamada de “Príncipe
Eletrônico” pelo sociólogo Octavio Ianni, está conduzindo as massa pelas
ruas brasileiras. À internet coube o papel de convocar, à TV de
conduzir.
"Este não foi um movimento partidário.Dele participaram os setores conscientes da vida política brasileira"
(Editorial de O Globo, 2/4/1964)
Ao perceber que o movimento não tinha direção e
poderia assumir bandeiras progressistas, as emissoras de TV, com a Globo
à frente, passaram a conduzi-lo.
Nos primeiros dias, para as TVs, eram vândalos que
estavam nas ruas e precisavam ser reprimidos. Reproduziam em linguagem
popular o que pediam os editoriais da mídia impressa.
Não esperavam, no entanto, que o movimento ganhasse
as proporções que ganhou. Longos anos de neoliberalismo exaltando o
consumo e o individualismo tiraram de algumas gerações o prazer de fazer
política voltada para a solidariedade e a transformação social.
Os partidos que poderiam ser eficientes canais de
participação passaram a se preocupar mais com o jogo do poder do que com
debate e o esclarecimento político, tão necessário na formação dos
jovens.
Tudo isso estava engasgado. O movimento do passe
livre serviu de destape. Reprimido com violência como queria a mídia,
ele cresceu. Milhões foram às ruas em repúdio ao vandalismo policial
daquela quinta-feira (13).
Em 2013, quem assumiu esse papel foi a TV. Percebendo
a grandeza física do movimento, mudou o discurso e passou a exaltar a
“beleza” das manifestações. Ofereceu para elas as suas bandeiras
voltadas para assediar o poder central.
O grito genérico contra a corrupção ecoa a tentativa
de golpe contra o governo Lula em 2005, ensaiado pelos mesmos agentes de
hoje. Naquela época o esforço era maior. A TV tinha de convencer a
massa a ir para a rua. Em 2013 ela já estava caminhando, era só entregar
as bandeiras.
É o que estão fazendo com todo empenho. A exaltação ao povo que “acordou” foi só o começo. O JN,
na sexta-feira (14), censurou uma entrevista dada no Rio por uma
integrante do Movimento do Passe Livre, Mayara Vivian. Enquanto ela
falava dos ônibus, tudo bem. Mas a parte em que ela defendia a reforma
agrária, a reforma política e o fim do latifúndio no Brasil foi cortada
pela censura global. Esses temas não fazem parte das bandeiras da
família Marinho.
A mudança da grade de programação, com a troca da
novela pelas manifestações “ao vivo”, na última quinta (20), é ainda
mais emblemática. Sinalizou para o telespectador que algo de muito grave
estava ocorrendo e ele deveria ficar “ligado na Globo” para “entender” a
situação.
Tanto entenderam que às 20h30 centenas, se não
milhares de pessoas, continuavam a sair das estações do Metrô na Avenida
Paulista. Iam se juntar aos “apolíticos” que hostilizavam os militantes
partidários insuflados por “pitbulls” (jovens parrudos)
estrategicamente postados ao longo da avenida. Pela minha cabeça
passaram imagens das brigadas nazistas vistas no cinema.
Os cartazes tinham de tudo. Alguém disse que era um
“facebook” real. Cada um “postava” na cartolina a sua reivindicação. E a
TV até disso se aproveitou.
Na sexta pela manhã, Ana Maria Braga ensinava como as
mães deveriam orientar seus filhos na confecção desses cartazes. Como o
Movimento pelo Passe Livre já disse que não iria mais convocar novas
manifestações, parece que a Globo assumiu o comando. Quando será o
próximo ato? Saiba na Globo.
Fustigado nas ruas e nas telas, o governo para
responder, tem de se valer da mesma TV que o ataca. Julgou, como
julgaram outros governos, que isso seria possível e por isso não
constituiu canais alternativos de rádio e TV capazes de equilibrar a
disputa informativa (a presidente Cristina Kirchner não entrou nessa).
Sem falar na regulamentação dos meios eletrônicos
cujo projeto formulado ao final do governo Lula está engavetado. Se
houvesse sido enviado ao Congresso e aprovado, outras vozes estariam no
ar. Teríamos mais chance de evitar o golpe anunciado.