O Jurista por excelência...
O ministro Ricardo Lewandovski, juiz do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a liminar dada por Gilmar Mendes contra votação de projeto no Congresso, deu uma verdadeira lição de direito ao "adevogado" de Diamantino (MT) que Fernando Henrique agraciou com o cargo de ministro, não por saber jurídico, mas como paga...deixa pra lá.
Com a contribuição da publicação do texto na íntegra pelo Brasil 247 e em que pese a linguagem jurídica, esse voto merece ficar para a história:
Tal interpretação,
contudo, a meu ver, levaria a um significativo aviltamento da
tradicional competência daquela Casa Legislativa no tocante ao controle
de constitucionalidade, reduzindo o seu papel a mero órgão de divulgação
das decisões do Supremo Tribunal Federal nesse campo. Com efeito, a
prevalecer tal entendimento, a Câmara Alta sofreria verdadeira capitis
diminutio no tocante a uma competência que os constituintes de 1988 lhe
outorgaram de forma expressa.
A exegese proposta,
segundo entendo, vulneraria o próprio sistema de separação de poderes,
concebido em meados do século XVIII na França pré-revolucionária pelo
Barão de la Brède e Montesquieu, exatamente para impedir que todas as
funções governamentais – ou a maioria delas - se concentrem em
determinado órgão estatal, colocando em xeque a liberdade política dos
cidadãos. O referido teórico, para tanto, concebeu a famosa fórmula
segundo a qual “le pouvoir arrete le pouvoir”, de modo a evitar que
alguém ou alguma assembleia de pessoas possa enfeixar todo o poder em
suas mãos, ensejando, assim, o surgimento de um regime autocrático.
Não se desconhece que
alguns críticos asseveram que a teoria da separação de poderes jamais
foi aplicada tal como originalmente concebida, consubstanciando mera
prescrição de natureza formal. 9 Em que pesem, contudo, as imperfeições
do sistema, que os norte-americanos denominam de checks and balances,
após terem-no inserido pioneiramente em sua Constituição de 1787, 10
entendo que elas não têm o condão de legitimar a ablação de uma
competência constitucional expressamente atribuída a determinado Poder.
Suprimir competências de
um Poder de Estado, por via de exegese constitucional, a meu sentir,
colocaria em risco a própria lógica do sistema de freios e contrapesos,
como ressalta Jellinek. 11
Não se ignora que a
Constituição de 1988 redesenhou a relação entre os poderes, fortalecendo
o papel do Supremo Tribunal Federal, ao dotar, por exemplo, as suas
decisões de efeito vinculante e eficácia erga omnes nas ações diretas de
constitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade
(art. 102, § 2o). O fortalecimento do STF, no entanto, não se deu em
detrimento das competências dos demais poderes, em especial daquela
conferida ao Senado Federal no art. 52, inc. X, da Carta em vigor.
Não há, penso eu, com o
devido respeito pelas opiniões divergentes, como cogitar-se de mutação
constitucional na espécie, diante dos limites formais e materiais que a
própria Lei Maior estabelece quanto ao tema, a começar pelo que se
contém no art. 60, § 4o, III, o qual erige a separação dos poderes à
dignidade de “cláusula pétrea”, que sequer pode ser alterada por meio de
emenda constitucional.
A nova interpretação que
se pretende dar ao dispositivo em comento, a meu ver, difere - e muito -
da mutação reconhecida quanto ao art. 97 da Constituição. Nesse caso, a
transformação operou-se a partir de uma práxis processual adotada pela
Suprema Corte, que, sem desrespeitar qualquer princípio ou norma
fundamental de nosso ordenamento jurídico, acabou por dispensar a rígida
observância do que nele se contém quando se trata da apreciação de
casos cujas teses já tenham sido julgadas pelo Plenário.
(…)
Mas o que se propõe aqui é
algo inteiramente diferente. Almeja-se, na verdade, deslocar uma
competência atribuída pelos constituintes a determinado Poder para
outro. Não me parece, contudo, seja possível materializar-se tal
desiderato, mesmo porque os próprios teóricos da mutação constitucional
reconhecem que esse fenômeno possui limites.
(…)
Com efeito, se o
dispositivo em questão assinala, com todas as letras, que compete ao
Senado Federal a suspensão de norma declarada inconstitucional por esta
Corte, assim o é, literalmente. Ainda que se possa, no mérito, discordar
do que nele se contém, o preceito em tela constitui o Direito posto, e
que não admite, dada a taxatividade com que está vazado, maiores
questionamentos.