O Fernando Brito, no "Tijolaço" nos dá hoje uma excelente contribuição ao transcrever a entrevista de Dilma Rousseff à colunista Mônica Bérgamo, da Folha de S. Paulo.
É um documento extraordinário pela paciência de Dilma que, mesmo gripada, repete, a cada resposta, o seu "olha querida..." para se contrapor às tentativas da colunista de lhe plantar cascas de banana verbais e pela pobreza de conteúdo.
No fim é um documento para a história no qual diz que tem um pacto com a verdade. Falar da verdade para a Folha é coisa que não combina bem com os papéis do Otavinho, especialista em modelar a "verdade" ao seu papel de substituto da oposição, mas vale a pena ler a entrevista.
Os comentários do Fernando Brito na abertura do texto estão aqui: http://www.tijolaco.com.br/index.php/a-entrevista-de-dilma-a-resposta-esta-na-foto/
A entrevista, na íntegra é esta:
Folha – As manifestações deixaram jornalistas, sociólogos e governantes perplexos. E a senhora, ficou espantada?
Dilma Rousseff - No discurso que fiz na comemoração dos
dez anos do PT, em SP [em maio], eu já dizia que ninguém, ninguém,
quando conquista direitos, quer voltar para trás. Democracia gera desejo
de mais democracia. Inclusão social exige mais inclusão. Quando a
gente, nesses dez anos [de governo do PT], cria condições para milhões
de brasileiros ascenderem, eles vão exigir mais. Tivemos uma inclusão
quantitativa. Esta aceleração não se deu na qualidade dos serviços
públicos. Agora temos de responder também aceleradamente a essas
questões.
Mas a senhora não ficou assustada com os protestos?
Não. Como as coisas aconteceram de forma muito rápida, eu acho que
todo mundo teve inicialmente uma reação emocional muito forte com a
violência [policial], principalmente com a imagem daquela jornalista da
Folha [Giuliana Vallone] com o olho furado [por uma bala de borracha].
Foi chocante. Eu tenho neurose com olho. Já aguentei várias coisas na
vida. Não sei se aguentaria a cegueira.
Se não fosse presidente, teria ido numa passeata?
Com 65 anos, eu não iria [risos]. Fui a muita passeata, até os 30,
40 anos. Depois disso, você olha o mundo de outro jeito. Sabe que
manifestações são muito importantes, mas cada um dá a sua contribuição
onde é mais capaz.
O prefeito Fernando Haddad diz que, conhecendo o perfil
conservador do Brasil, muitos se preocupam com o rumo que tudo pode
tomar.
Eu não acho que o Brasil tem perfil conservador. O povo é lúcido e
faz as mudanças de forma constante e cautelosa. Tem um lado de avanço e
um lado de conservação. Já me deram o seguinte exemplo: é como um
elefante, que vai levantando uma perna de cada vez [risos]. Mas é uma
pernona que vai e “poing”, coloca lá na frente. Aí levanta a outra. Não
galopa como um cavalo. Aí uma pessoa disse: “É, mas tem hora em que ele
vira um urso bailarino”. Você pode achar que contém a mudança em limites
conservadores. Não é verdade. Tem hora em que o povo brasileiro aposta.
E aposta pesado.
A senhora teve uma queda grande nas pesquisas.
Não comento pesquisa. Nem quando sobe nem quando desce [puxa a
pálpebra inferior com o dedo]. Eu presto atenção. E sei perfeitamente
que tudo o que sobe desce, e tudo o que desce sobe.
Mas isso fez ressurgir o movimento “Volta, Lula” em 2014.
Querida, olha, vou te falar uma coisa: eu e o Lula somos
indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não
cola. Agora, falar volta Lula e tal… Eu acho que o Lula não vai voltar
porque ele não foi. Ele não saiu. Ele disse outro dia: “Vou morrer
fazendo política. Podem fazer o que quiser. Vou estar velhinho e fazendo
política”.
Para a Presidência ele não volta nunca mais?
Isso eu não sei, querida. Isso eu não sei.
Ao menos não em 2014.
Esses problemas de sucessão, eu não discuto. Quem não é presidente é
que tem que ficar discutindo isso. Agora, eu sou presidente, vou
discutir? Eu, não.
Mas o Lula lançou a senhora.
Ele pode lançar, uai.
O fato de usarem o Lula para criticá-la não a incomoda?
Querida, não me incomoda nem um pouquinho. Eu tenho uma relação com o
Lula que tá por cima de todas essas pessoas. Não passa por elas,
entendeu? Eu tô misturada com o governo dele total. Nós ficamos juntos
todos os santos dias, do dia 21 de junho de 2005 [quando ela assumiu a
Casa Civil] até ele sair do governo. Temos uma relação de compreensão
imediata sobre uma porção de coisas.
Mas ele teria criticado suas reações às manifestações.
Minha querida, ele vivia me criticando. Isso não é novo [risos]. E
eu criticava ele. Quer dizer, ele era presidente. Eu não criticava. Eu
me queixava, lamentava [risos].
Como a senhora vê um empresário como Emílio Odebrecht falar que quer que o Lula volte com Eduardo Campos de vice?
Uai, ótimo para ele. Vivemos numa democracia. Se ele disse isso, é porque ele quer isso
Folha – Sua principal proposta em reação às manifestações foi a
realização de um plebiscito para fazer a reforma política. A crítica à
senhora é que ninguém nas passeatas pedia isso.
Dilma Rousseff - Pois acho que tá todo mundo pedindo
reforma política. As manifestações podiam não ter ainda um
amadurecimento político, mas uma parte tem a ver com representatividade,
valores, o que diz respeito ao sistema político. Ao fato de que os
interesses se movem conforme o financiamento das campanhas. Não dá para
cuidar de transparência sem discutir o sistema. “O gigante despertou”,
diziam nos protestos -o que mostra o inconformismo com a nossa forma de
representação.
O Congresso Nacional fará reforma contra ele mesmo?
Querida, por isso que eu queria um plebiscito. A consulta popular era a baliza que daria legitimidade à reforma.
Mas a senhora concorda que o plebiscito não sai?
Eu não concordo com nada, minha querida. Eu penso que é importante
sair. E não sei ainda se não sai. Eu acho que é inexorável. Se você não
escutar a voz das ruas, terá novos problemas.
E a saúde? Os profissionais da área dizem que o Mais Médicos é
uma maquiagem porque o país tem uma estrutura precária de atendimento.
É? Pois é. Acontece que botamos dinheiro em estrutura. Jornais e TVs
mostram que há equipamentos sem uso. Como você explica que 700
municípios não têm nenhum médico? E que 1.900 têm menos de um médico por
3.000 habitantes? Uma coisa é certa: eu, com médico, me viro. Sem
médico, eu não me viro.
Folha — O PMDB engrossou o coro dos que defendem o enxugamento de ministérios.
Dilma Rousseff – Não estou cogitando isso. Não acho que
reduza custos. As medidas de redução de custeio, nós tomamos. Todas. E
sabe o que acontece? Vão querer cortar os de Direitos Humanos, Igualdade
Racial, Política para as Mulheres. São pastas sem a máquina de outros.
Mas são fundamentais. Política de cotas, por exemplo: só fizemos porque
tem gente que fica ali, ó, exigindo.
A senhora sabe falar o nome de seus 39 ministros?
De todos. E todos eles ficam atrás de mim [risos]. Eu acho
fantástico vocês [jornalistas] acharem que, nesse mundo de mídias, o
despacho seja apenas presencial. Os ministros passam o tempo inteirinho
me mandando e-mail, telefonando, conversando.
O ministro Guido Mantega está garantido no cargo?
O Guido está onde sempre esteve: no Ministério da Fazenda. E vocês podem me matar, mas eu não vou falar de reforma ministerial.
O desemprego em junho subiu pela primeira vez em quatro anos, na comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Querida, o desemprego… [Consulta papéis.] Olha aqui, ó. É
fantástico. Tem dó de mim, né? Como não podem falar de inflação, porque o
IPCA-15 [prévia do índice oficial] deu 0,07% neste mês… E nós temos
acompanhamento diário da inflação, tá? Hoje deu menos 0,02%. Tá? Ela
[inflação] é cadente, assim, ó [aponta o braço para baixo].
E o emprego?
Houve uma variação. Foi de 5,9% para 6%. É a margem da margem da
margem. Foram gerados 123.836 empregos celetistas. Em todo o primeiro
mandato do Fernando Henrique Cardoso foram gerados 824.394 empregos. Eu,
em 30 meses, gerei 4,4 milhões. Você vai me desculpar. Com a inflação,
também… Alguém já disse quanto é que caiu o preço do tomate? Ou só
comentaram quando o tomate aumentou? [Pede para uma assessora checar os
números. Ela informa que o tomate está custando R$ 4,50 o quilo.] Eu não
sou dona de casa, não posso mais ir no supermercado e não sei o preço
do tomate hoje. Mas sei a estatística do tomate. Teve uma queda, se não
me engano, de 16%. Eu ia naquele supermercado ali, ó [aponta a janela].
Não posso mais.
A senhora acha que os críticos do governo exageram?
Eu propus cinco pactos [depois das manifestações]. E eu tenho um
sexto, sabe? Que é o pacto com a verdade. Não é admissível o que se faz
hoje no Brasil. Você tem uma situação internacional extremamente
delicada. Os EUA se recuperam, mas lentamente. Nós temos um ajuste
visível na China. O Fed [Banco Central dos EUA] indicou que deixaria o
expansionismo monetário, o que provocou a desvalorização de moedas em
todo o mundo. E o país, nessa conjuntura, mantém a estabilidade.
Cumpriremos a meta de inflação pelo décimo ano consecutivo. Sabe em
quantos anos o Fernando Henrique não cumpriu a meta? Em três dos quatro
anos dele [em que a meta vigorou].
A inflação subiu por vários meses no período de um ano.
Nós tivemos a quebra na produção agrícola americana, que afetou os
mercados de commodities alimentares. Tivemos uma seca forte no Nordeste e
também no sul.
A crítica é que a senhora relaxou no controle da inflação para manter o crescimento.
Ah, é? Tá bom. E como é que ela tá negativa agora?
Há dúvidas também em relação à política fiscal.
A relação dívida líquida sobre PIB nunca foi tão baixa. A dívida
bruta está caindo. O deficit da Previdência é 1% do PIB. As despesas com
pessoal, de 4,2%, as menores em dez anos. Como é que afrouxei o fiscal?
Quero falar do futuro. De agosto até o início do ano que vem, faremos
várias concessões, rodovias, ferrovias, aeroportos e portos, o que vai
contribuir para a ampliação dos investimentos e para melhorar a
competitividade da economia.
Mas o Brasil cresce pouco.
O mundo cresce pouco. Nós não somos uma ilha. Você não está com
aquele vento a favor que estava, não. Nós estamos crescendo com vendaval
na nossa cara.
O modelo de crescimento pelo consumo não se esgotou?
É uma tolice meridiana falar que o país não cresce puxado pelo
consumo. Os EUA crescem puxados pelo consumo e pelo investimento. Nós
temos que aumentar a taxa de investimento no Brasil. Aí eu concordo.
Tanto que tomamos medidas fundamentais para que isso ocorra. Reduzimos
os juros. Desoneramos as folhas de pagamento. Reduzimos a tarifa de
energia. E fizemos um programa ousado de formação profissional, o
Pronatec.
Os investimentos estão lentos e isso é creditado ao governo. Os empresários reclamam que a senhora não tem diálogo.
Eu? Veja a agenda de qualquer tempo da minha vida. Participei de
todos os leilões, do período Lula e do meu. Entendo que eles
[empresários] queiram conversar comigo, como faziam sistematicamente.
Mas sou presidente. Eu não posso mais discutir taxa interna de retorno.
É outra crítica: o governo interfere, quer definir até a taxa.
É da vida o empresário pedir mais, o governo pedir menos. Aí ganha
no meio. O Tribunal de Contas da União exige a definição de uma taxa de
retorno. E o governo tem de ter sensibilidade para perceber quando está
errado.
A senhora teria características que não contribuiriam para que projetos deslanchem. Seria centralizadora, autoritária.
Não, eu não sou isso, não. Agora, eu sei, como toda mulher, que, se
você não acompanha as coisas prioritárias, tem um risco grande de elas
não saírem. É que nem filho. Você ajuda até um momento, depois deixa
voar.
A senhora já fez ministros chorarem com suas broncas?
Ah, que ministros choram o quê! Aquela história do [ex-presidente da
Petrobras José Sergio] Gabrielli? Um dia escreveram que ele era
pretensioso e autoritário. No dia seguinte, que eu tinha brigado e que
ele chorou no banheiro. A gente ligava pra ele: “Eu queria falar com o
autoritário chorão”. Ô, querida, você conhece o Gabrielli? Ah, pelo amor
de Deus.
A senhora não é dura demais?
Ah, querida, eu exijo bastante. O que exijo de mim, exijo de todo mundo.
Isso não inibe ministros?
Não tenho visto eles inibidos, não. Nenhum projeto de governo sai da
cabeça de uma pessoa só. Não funciona assim. Se funcionasse, eu tava
feita. Não trabalharia tanto.
Uma das questões que Lula encaminhou no fim do governo foi o
da regulamentação da radiodifusão no país. A senhora enterrou esse
assunto?
Não. Agora, o que eu e Lula jamais aceitaremos é que se mexa na
liberdade de expressão. Vou te dizer o seguinte: não sou a favor da
regulação do conteúdo. Sou a favor da regulação do negócio.
O que acha de o ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, ser chamado por críticos de “ministro do Plim-Plim”?
É um equívoco, uma incompreensão. Essa discussão [da regulação] está
sempre posta. O [ex-chefe da Secretaria de Comunicação Social] Franklin
[Martins] deixou um legado importante. E agora vai ter mais discussão. A
regulação em algum momento terá de ser feita. Mas ela não é igual ao
que se pensou há três anos. É algo complexo, até o que deve ser regulado
terá de ser discutido.
Por quê?
Hoje o que está em questão não é mais empresa jornalística versus
telecomunicações, TV versus jornais. Hoje tem a internet. Tem um
problema sério, nos EUA, no Brasil, para jornais escritos, revistas. Vai
haver problema de concorrência da internet, da plataforma IP, em TV.
Temos de discutir. Eu não tenho todas as respostas. Todo mundo terá
de participar. O Google hoje atrai mais publicidade que mídias que até
há pouco eram as segundas colocadas. A vida é dura. E não é só para o
governo. [Dilma pede que a conversa seja encerrada, alegando cansaço].
Gente, preciso ir. Estou tontinha da silva [risos].
Ia perguntar sobre seus prováveis adversários em 2014, Aécio Neves e Marina Silva.
[Em tom de brincadeira] Não fica triste, mas sobre isso eu não ia responder, não.